Celebrar Agustina

Agustina Bessa-Luís em Esposende, 1964. © Arquivo de Família

Agustina Bessa-Luís em Esposende, 1964.
© Arquivo de Família

 

Hoje, dia 15 de Outubro de 2021, Agustina faria 99 anos. Em cumprimento, lembramos Agustina neste breve trecho de Um cão que sonha, deixando-a caminhar tranquilamente sobre os seus próprios passos, na companhia da misteriosa Maria Pascoal, das mais misteriosas das suas personagens, às vezes confundida consigo mesma, no seu próprio caminho.

"Mas Monte Faro não era somente a praia de Verão. Havia dias, já na queda de Setembro, em que Maria ia para lá. Havia pouca gente, e crianças só algumas de berço; as outras desapareciam quando reabriam as aulas. A vida do mar tomava ascendente sobre o turismo, e via-se na calha do rio sair de madrugada a frota dos barcos. Pareciam deslizar num alçapão de teatro, rente ao paredão da avenida; só se viam as velas, o casco ficava escondido pela balaustrada de cimento. Era uma marcha fantástica, com o rufar dos motores, como se fosse a retirada de Dunquerque, ou coisa assim. Maria via-os do Monte-Faro; primeiro era o trepidar das cabines, uma pincelada verde acima da linha de água. Depois, abria-se a manhã, o nevoeiro abria-se. E as velas, em procissão, passavam devagar em direcção ao mar. Levantava-se um vento cativo ainda da bruma. 'Um vento como o de Argos' – Pensava Maria Pascoal. 'Primeiro agachado como um cão medroso, depois refrescando as ondas que se arrepiavam de excitação, a fazer baloiçar a quilha das naves.' Ficou contente com a imagem que lhe surgiu, e preparou-se para escrever.

Primeiro foram só notas sobre o folclore do lugar, as paisagens, os cheiros, os moradores. Mas depois tudo ficou ligado por um fio de sentimento próprio, um íntimo roteiro que a levava ao encontro do mundo, seu parceiro na obra que iam fabricar. Ela estava movida pelo vento 'como o de Argos', em que as paixões resplandeciam. Ela morria daí a sete anos e não se diga que tudo ficava por viver. Nesse tempo de Monte-Faro, arderam nela todas as velas plantadas no terreno do conhecimento. O sentido da vida revelou-se naquele prazer anunciado pelo conceito estético de tudo que ia escrever. Haveria outra coisa?"

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