Reflexão de outubro

“Pedro, mandou chamar os seus cortesãos, as damas e o seu herdeiro, os físicos e os bispos; mandou que a sua corte se reunisse, nobres, cavaleiros e doutores.

E disse-lhes:

- Sabeis, senhores, o que é a alegria?

Ninguém falou. Por fim, um velho avançou, passou a pálida mão pela barba branca, e respondeu, olhando para o chão:

- A alegria é a fama dum grande rei espalhada por todos os povos da terra.

- Merecias duas bastonadas, uma pela lisonja, outra pelo mau conselho. – E Pedro voltou-se para um pajem que lhe apresentava uma taça de água amarga, que era a sua medicina. – Tu sabes o que é a alegria?

- É a mocidade – disse o rapaz.

- É uma febre – disse um médico, escondendo nas mangas as mãos longas e geladas.

- É o amor – disse uma dama.

- É a honra – disse um cavaleiro, acariciando no cinto um punhal.

- É a glória – disse um guerreiro.

- É a liberdade – disse um trovador.

O rei Pedro voltou-lhes as costas, e não quis ouvir mais. Ouvia, sim, misturada com o vento, a música do tocador de rabeca, e sentia-se muitíssimo alegre e despreocupado.

[…] Despediu com um gesto a sua corte de pajens e cavaleiros, e pôs-se a
meditar cuidadosamente.”

(Agustina Bessa-Luís – O Baile dos Archotes – revista Tempo Presente, 1959)

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